Deise Dilkin05/11/2019

Quem foi Frida Kahlo?

Em julho de 2019 completamos 65 anos sem Frida Kahlo, a emblemática pintora mexicana. Sua curta vida foi marcada pela sua história impressionante e conturbada, passando pelo acidente, as internações, os abortos e sua relação amorosa tumultuada com Diego Rivera.

Entre as muitas qualidades que marcaram a artista estão a sua dignidade pessoal, bravura e luta mesmo em face de muito sofrimento físico. Frida sempre esteve muito à frente de seu tempo, no entanto sua obra só foi reconhecida postumamente. Hoje ela ocupa o posto de uma das figuras femininas mais conhecidas do mundo.

Além de ser uma artista singular, reconhecida por suas pinturas, esculturas, fotografias, documentos, desenhos e cartas, ela foi uma personagem muito significativa no âmbito político e cultural no México. Infelizmente, sua obra por muitas vezes é deixada em segundo plano em face dos acontecimentos traumáticos de sua vida. Esse fato faz com que perca-se de vista as relações de Frida Kahlo com as expressões da cultura popular mexicana em ambiente revolucionário.

Neste artigo pretendemos retratar a artista em suas mais variadas facetas, da artista emblemática à mulher transgressora. Desde sua visão política à defesa da liberdade corporal, sexual e igualdade de gêneros. Boa leitura!

A Família e Infância de Frida Kahlo

"A perna continuava muito fina. Aos sete anos eu usava botinhas. No início, eu achava que as piadas sobre a minha perna não me magoavam, mas depois elas começaram a me fazer mal e, com o passar do tempo, ainda com mais intensidade" - Frida Kahlo

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu e morreu no mesmo local, na Casa Azul em Coyoacán, hoje bairro periférico da Cidade do México. Considerado um dos lugares mais extraordinários do país, sua casa foi convertida em museu, com todas as suas pinturas e pertences.

Nascida em 6 de julho de 1907, era filha do alemão Guillermo Kahlo e da espanhola Matilde Calderón e desde pequena teve uma saúde debilitada. Aos seis anos de idade ela contraiu poliomielite e teve que ficar um período de nove meses acamada. Fato este que pode ter dado início na obsessão que a artista teria pelo próprio corpo.

Em consequência da doença, a perna direita de Frida se tornou mais curta e mais fina, deixando-a coxa, o que lhe rendeu o apelido de "Frida da perna de pau". Este foi somente o primeiro padecimento ao longo de sua vida.

Quando Frida melhorou, foi-lhe recomendado um programa de exercícios físicos para fortalecer a perna direita. Seu pai fez de tudo para que a menina praticasse todo tipo de esporte, o que era tido como bastante incomum para meninas respeitáveis naquela época. Frida jogava futebol, lutava boxe, luta romana e tornou-se campeã de natação. Gostava de subir em árvores e jogar bola.

No ano de 1922, Frida ingressou na Escola Nacional Preparatória. Foi neste período que ela entrou em contato com os ideais nacionalistas da chamada arte revolucionária. E também onde conheceu o amor de sua vida, Diego Rivera.

Em setembro de 1925, um acontecimento mudou os rumos da vida da artista. Ao voltar para casa, acompanhada do namorado Alejandro, o ônibus em que estavam bateu em um trem elétrico. Frida ficou gravemente ferida, tendo um corrimão atravessado sua barriga, sua coluna quebrada em vários lugares e o pé direito completamente destroçado. Esse acidente fez com que a pintora ficasse acamada por um extenso período. O mesmo acidente também fez com que Frida tivesse que passar por inúmeras cirurgias ao longo de sua vida.

Vida Afetiva de Frida Kahlo

"Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você. Você sem dúvida foi o pior deles." - Frida Kahlo

Foi na Escola Preparatória que Frida conheceu Diego Rivera, muralista mexicano, grande amor de sua vida e com quem teve uma intensa e conturbada vida conjugal. Ele estava pintando o mural "A Criação" (1922) no Anfiteatro Simón Bolívar e era admirado pela artista, então com 15 anos.

Em 1928 a artista decidiu levar seus quadros para Diego avaliar. Ele, além de se apaixonar por suas pinturas, também se apaixonou pela pintora. Casaram-se em 1929, ela com 22 e ele com 43 anos, em uma cerimônia simples em sua Casa Azul em Coyoacán.

Quem foi Frida Kahlo?

O relacionamento foi intenso e repleto de traições, de ambas as partes. Separaram-se pela primeira vez alguns anos depois, quando Frida descobriu que seu marido estava tendo um caso com sua irmã mais nova, Cristina Kahlo. Menos de um ano depois voltaram a morar juntos, período no qual Frida também passou a ter relações extraconjugais com homens e mulheres.

O mais famoso dele foi com o marxista Leon Trotsky, ídolo de seu marido e ao qual ela havia dado abrigo em sua casa. Conta-se que quando Diego descobriu o caso entre ambos, expulsou o comunista de sua casa alegando divergências políticas.

O muralista aceitava e até mesmo incentivava o envolvimento íntimo de sua esposa com outras mulheres. No entanto, ameaçava constantemente os amantes homens. Entre os diversos casos e relacionamentos com outras mulheres ao longo da vida, estão a cantora mexicana Chavela Vargas e, supostamente, a também cantora e dançarina Josephine Baker.

O Estilo Ártístico de Frida Kahlo

"Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor." - Frida Kahlo

A principal inspiração para suas pinturas e fotografias vieram de suas angústias e dificuldades em lidar com sua própria condição. Suas obras tinham forte influência de sua identificação com o povo e cultura mexicana, com cores fortes, símbolos folclóricos e referências indígenas.

Sua primeira obra de arte intitulada "Autorretrato com vestido de veludo", foi pintada em 1926 como presente para seu ex-namorado Alejandro Gómez Arias. Naquela época, ela passava muito tempo deitada por causa do acidente que sofreu. Pintava a si mesma com a ajuda de vários espelhos instalados em seu quarto, com o objetivo de que pudesse ver-se de vários ângulos.

Em 1937, Frida teve o primeiro destaque em sua carreira: o pioneiro do surrealismo, André Breton, reconheceu seu trabalho como surrealista apesar da negação constante da pintora. Segundo ela, sua obra tratava da realidade e não de fantasia. Apesar disso, pintou muitos autorretratos, paisagens mortas e cenas imaginárias, tendo uma estética muito próxima do surrealismo.

Foi apenas após a sua morte, em 1954 que a artista se tornou famosa com os seus quadros e escritos. Em vida, Frida era mais conhecida como a "esposa de Diego Rivera". Sua primeira exposição individual no México foi em 1953, pouco antes de sua morte e quando a artista já estava bastante debilitada. Frida presenciou a inauguração deitada em sua cama, que haviam instalado na galeria naquela mesma tarde.

As Principais Obras de Frida Kahlo

"Pés, para que os quero, se tenho asas para voar." - Frida Kahlo

Autora de pinturas fortes, Frida Kahlo produziu mais de 200 obras, entre autorretratos, retrato de familiares e natureza morta. Entre as suas principais obras estão:

  • Autorretrato em vestido de veludo, 1926;
  • O ônibus, 1929;
  • Frida Kahlo e Diego Rivera, 1931;
  • Henry Ford Hospital, 1932;
  • Autorretrato com colar, 1933;
  • Meu Vestido Pendurado Lá (New York, New York);
  • Meus avós, meus pais e eu, 1936;
  • As duas Fridas, 1939;
  • Autorretrato com cabelos cortados, 1940;
  • Autorretrato com colar de espinhos e colibri, 1940;
  • Autorretrato como tehuana, 1943;
  • Diego em meu pensamento, 1943;
  • O veado ferido, 1946;
  • Diego e eu, 1949;
  • O marxismo dará saúde aos doentes, 1954.

Frida retratava sua vida em imagens surreais com cores fortes e traços marcantes, características de suas obras. Seu relacionamento conturbado com o marido, os três abortos e seu sofrimento físico são temas comuns em suas principais obras. Em muitos dos quais ela aparece de corpo inteiro, muitas vezes sangrando, sofrendo e em hospitais.

Frida retratava sua vida em imagens surreais com cores fortes e traços marcantes, características de suas obras.

Os Problemas de Saúde de Frida Kahlo

"Eu não estou doente… Eu estou despedaçada… Mas me sinto feliz por estar viva enquanto eu puder pintar." - Frida Kahlo

Durante toda a sua vida, Frida Kahlo passou por mais de 30 cirurgias, resultantes principalmente do acidente de ônibus que sofreu quando tinha 18 anos. Além do problema no pé esquerdo causado pela poliomielite e por todas as cirurgias que teve que realizar em função do acidente, Frida também sofreu três abortos.

Em 1930, um ano após o casamento, a artista engravidou mas sofreu um aborto espontâneo. Neste mesmo ano foi embora com o marido para os Estados Unidos realizar exposições e sofreu um segundo aborto. Em 1934, ao retornar para o México, Frida sofreu o seu terceiro aborto e na mesma época teve os seus dedos do pé esquerdo amputados.

Em 1950, teve sua perna direita amputada em decorrência da poliomielite que teve na infância. Esse fato a fez entrar em depressão. Durante toda a sua vida a pintora teve que lidar com infecções, muita dor, o colete ortopédico e consequentemente abuso de bebidas alcóolicas.

Frida Kahlo, a Filha da Revolução

Desde adolescente Frida organizava e liderava pequenas revoluções contra professores que não considerava bons. Na Escola Nacional Preparatória, uma das mais renomadas instituições de ensino do México, a artista inclusive solicitava ao diretor que demitisse determinados professores pois não concordava com os seus métodos de ensino.

Meus avós, meus pais e eu. Uma das várias artes revolucionárias da artista Frida Kahlo.

Mesmo tendo nascido em 1907, dizia a todos que havia nascido em 1910 ano de início da Revolução Mexicana e, portanto, se declarava "filha da revolução". O escritor mexicano Francisco Haghenbeck, em seu livro O segredo de Frida Kahlo, descreve Frida como "uma rebelde, uma mulher firme de suas convicções e comprometida com seus ideais."

Em 1928, Frida se filiou ao Partido Comunista Mexicano onde se tornou ativista pelo direito dos trabalhadores. Sempre imprimiu em suas obras resistência às tentativas de opressão do povo mexicano. Ela também lutava pelos direitos das mulheres e valorizava muito a cultura indígena do povo andino.

Frida Kahlo e o Feminismo

Frida Kahlo nunca se apresentou feminista, mas é impossível não ver em sua vida e obra um universo feminino e rebelde contra a condição social das mulheres da época. A artista levava a sua vida como uma mulher muito à frente de seu tempo. Nunca escondeu sua bissexualidade, retratou a maternidade de forma crua e frustrada e quebrou diversos tabus.

A começar contrariando a expectativa de sua mãe ao se casar com Diego, um homem de ideal político, ateu, 21 anos mais velho que ela e estética diferentes do que sua mãe esperava. Em uma foto com a família, ela aparece vestindo um traje masculino e postura diferente da que as mulheres assumiam na época.

Também não se encaixava nos padrões estéticos da época e nem fazia questão. Achava sua monocelha e os seus olhos as partes mais bonitas de seu corpo. Conquistou o seu espaço no meio artístico e usava uma vestimenta tehuana, típica de mulheres mexicanas independentes. E foi através de sua obra que acabou inspirando muitas mulheres, de forma que se tornou um símbolo para o movimento feminista.

A Morte de Frida Kahlo

"Que minha partida seja feliz, e desejo que eu nunca tenha que regressar." - Frida Kahlo

Frida morreu em 1954, aos 47 anos na cidade onde nasceu. Foi vítima de uma embolia pulmonar causada por uma forte pneumonia. Entre as diversas teorias sobre a sua morte, há relatos de que ela possa ter morrido por uma overdose de remédios, proposital ou não. Alguns meses antes ela havia tentado se matar.

Outros acreditam que Frida tenha morrido envenenada pelas amantes de Diego Rivera. Sabe-se que a artista tentou suicídio várias vezes e em seu diário suas últimas palavras foram: "que minha partida seja feliz, e desejo que eu nunca tenha que regressar".

Frida Kahlo, um Ícone Pop

Foi no final dos anos 1970 que as feministas e os críticos de arte a notaram como um ícone das artes e do universo feminino. Uma artista singular, apaixonada pela vida, retratando de forma visceral a dor que era só dela, transformando suas limitações em arte. Desde então ela se tornou um ícone pop.

O ápice da figura pop da artista foi a edição de novembro de 2012 da revista Vogue México, onde a capa foi uma imagem de Frida feita pelo fotógrafo Nickolas Muray. A revista reconheceu a imagem da artista como referência e depois disto muitos desfiles e coleções de roupas foram criados em sua homenagem.

De forma póstuma, Frida Kahlo se tornou um ícone muito popular.

Dez anos antes o filme Frida, protagonizado por Salma Hayek, chegava às telas. Desde então produtos com a imagem da artista viraram febre. Produtos culturais, como bolsas, quadros personalizados, releituras artísticas, camisetas, carteiras, entre outros, passaram a figurar como os mais desejados.

Frida Kahlo tornou-se muito mais do que uma pintora renomada e respeitada, acabou sendo um ícone pop e consolidou-se como personagem fashion e nunca fora de moda.

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