Agnes Sanches09/05/2020

Mamacita Linda: Cartas entre Frida Kahlo e sua mãe

As cartas foram escritas quando Frida Kahlo e Diego Rivera iniciaram suas viagens pelos Estados Unidos. Nas cartas Frida expressa saudades de sua família que permanecia no México, um descontentamento da vida que levava nos EUA e, principalmente, o lado afetuoso entre ela e sua mãe Matilde Calderón.

Frida e Matilde enfrentaram desafios na saúde e ambas eram casadas com artistas. No período em que as cartas foram trocadas, Matilde Calderón estava muito doente e vinha de uma luta contra o câncer de mama e pedras na vesícula. Já Frida, iniciava sua notoriedade e se desenvolvia como artista, mas era vista apenas como a esposa de Diego Rivera e não como a pintora independente que sempre foi.

São Francisco, 10 de Novembro de 1930 - Carta de Frida para mãe

Frida relata à sua mãe como fora sua saída do México e a entrada nos EUA. As belezas que encontrara no caminho, seu fascínio pela cidade de Los Angeles e o contraste com a vida que levava no México.

Frida relata situações que podem ser lidas com certo ar de humor: "A praia é magnífica, mas as gringas são horríveis. As estrelas de cinema não valem um picolé".

Na carta Frida também fala da maneira com que ela e Diego foram acolhidos em São Francisco, à estrutura da casa em que vivem, sem deixar de mencionar o sofrimento com seu corpo debilitado.

"Estou escrevendo esta carta tão mal porque estou deitada. Como de costume, tive uma inflamação, mas as esposas dos outros artistas foram muito legais comigo."

Entre os relatos da nova experiência, Frida não deixa de mostrar preocupações e interesse em seus familiares:

"Como está o Papá? Ele está trabalhando? Conte-me tudo. Tudo o que eu puder mandar para você, mandarei imediatamente. Fale-me também sobre a Kitty e 'la niña linda.' Como elas estão? Quero saber cada coisinha que você está fazendo, detalhe por detalhe. Escreverei para Mati e Adri separadamente. Também escreverei para a tia Bela e para o Carito, para a vovó e para todos os outros."

A carta repleta de detalhes do dia a dia de Frida se encerra com muita ternura para com seus familiares em especial para sua mãe Matilde:

"Escreverei todos os dias, se conseguir. Mil beijos para o Papá, Kitty, la nena e todos. E para você, todo o meu amor, sua Frieducha"

São Francisco, 12 de fevereiro de 1931 - Mais cartas de Frida

Frida relata as mesmas preocupações com a família, sua inexperiência na cozinha e sua melhora no ânimo, permitindo com se dedique a pintura.

"Tentei fazer os crepes, mas eles ficaram parecendo "vômito de bêbado". Fiz uma bagunça ao virá-los, e eles ficaram crus no meio. É inútil eu tentar me dedicar à culinária. Sou péssima nisso e estrago tudo. Acho que o melhor é esperar até eu voltar para o México, e então você poderá me ensinar."

"não me sinto mais tão deprimida quanto costumava me sentir. Pelo menos eu consigo pintar". …"Fiz seis pinturas, e todos gostaram muito delas" Em meio aos desafios com a saúde, Frida mostra constante interesse em saber como anda a rotina de sua família e a dos animais de estimação. O término da carta mostra ternura e o anseio por breves notícias. "Bem, minha Linda, mando para você milhares de beijos e meu enorme carinho. Mando o mesmo para o Papá, Kitty e para la nenita." … Cuide-se bem e, enquanto isso, sua "Frieducha" manda um milhão de beijos.

Nova York, 23 de Novembro de 1931 - Carta de Frida para sua mãe

Frida relata viver um período de tédio e senti muito a falta de sua mãe. Reclama das saídas para jantar e da forma divertida como ela e Diego reagem diante de amigos milionários. A alta temperatura na cidade é um fato que traz muito desconforto:

"Suamos constantemente, dia e noite. E, como as casas e apartamentos têm muito pouco ar fresco, é terrível. Também é preciso ficar com as luzes elétricas acesas o dia todo, já que os prédios não têm acesso à luz do dia. É um sofrimento viver em uma cidade como esta…"

Frida vive uma nova realidade, e percebe que o custo de vida agora é mais alto do que em seu amado México.

"Esse pequeno café da manhã custa cerca de um dólar e vinte cinco centavos por dia, o que equivale a aproximadamente três pesos mexicanos. É possível comer as refeições de um dia inteiro por esse valor no México."

México, 1 de janeiro de 1932 - Matilde inicia sua carta de forma carinhosa

"Mi niña mía, mi Frieduchita (Minha querida, minha Friduchita) Não consigo dizer o quanto eu gostaria de ser tão sortuda quanto esta carta e viajar para onde você está, beijar e conversar com você para deleite do meu coração, mas espero que em breve possamos fazer isso juntas. "Chegará a hora em que poderemos aproveitar nossos momentos juntas."

Matilde continua relatando lembranças da infância de Frida, e mostra entendedora da solidão que faz parte da vida de Frida. Detalhes relatados nas cartas, que mostram que mesmo distantes mãe e filha se conheciam bem e ansiavam pelo que dia em que estariam juntas novamente.

A carta Matilde não é tão extensa como as de Frida, mas nas poucas linhas ela expressa amor, e muitas saudades.

"Espero que você tenha um dia feliz na companhia de Diego. Desculpe-me pela escrita ruim, não reescreverei porque não tenho tempo. Tenho um presente para você aqui. Darei a você quando voltar. Mando muitos beijos até que eu possa beijá-la pessoalmente. Sua mãe que te adora - Matilde"

Frida refere-se à mãe como Mamacita Linda, que significa mãe fofa, mostrando um lado carinhoso e afetuoso. Nova York, 8 de Janeiro de 1932 - Frida escreve para sua mãe Matilde. Neste período vivendo em Nova York, Frida relata uma vida agitada devido à exposição das obras de Diego na cidade.

"À noite, eu caio na minha cama exausta de tanto ir de lá para cá. Esta semana, depois da abertura da exposição, foi uma das piores. Todos querem convidar o Diego para festas, chás e jantares. E, quando ele mesmo não pode ir porque está trabalhando eu tenho que ir no lugar dele."

Frida se adapta melhor a cidade e começa a apreciar a beleza do local. A vida agitada que ela e Diego levam não rende financeiramente como desejavam. E o desejo de voltar ao México e estar junto da família é sempre pontual.

"Conte-me, Linda, como você e o Papá estão? Por sorte, estou com boa saúde. Estou cansada de viver cercada por essas senhoras e senhores velhos sempre tão arrumados e idiotas. Pelo menos o Diego está feliz aqui, pintando. E, até agora, ele tem estado bem. Não ficou doente nenhuma vez." "Gosto mais de Nova York do que eu gostava no começo, mas o que quero mesmo é ir para casa, no México, e ver você." "Mande muitos beijos para o Papá, Kitty, la niña, Toño e para todos os outros. E para você, mi Linda, eu mando milhares deles, sua Frieducha, que adora você." F.

México, 08 de Abril de 1932 - Matilde Calderón escreve para Frida

A carta inicia da mesma forma carinhosa:

"Mi niña linda mi Friduchita"

Matilde deixa claro que é ela quem está escrevendo, diferente de cartas anteriores. Também expressa sua preocupação com a saúde de Frida:

"Quero saber como você está se recuperando da sua luta contra a gripe. Ficamos muito preocupados aqui no México. Você deve consultar o médico e tomar remédios para se fortalecer. Cuide-se bem, ok?" "Diga ao Diego que eu o admiro mais a cada dia. Mande lembranças a ele e cuide bem dele. Mando muitos beijos, e que Deus cuide de você. Sua mãe que adora você - Matilde"

Uma carta curta, mas com amor.

México, 15 de agosto de 1932 - Matilde escreve para Frida

"Mi niña encantadora (Minha garotinha encantadora), Nunca conseguirei explicar a sensação maravilhosa que eu senti quando ouvi sua voz com tanta clareza e tão bem, que parecia que você estava aqui do meu lado. Matilde relata a emoção ao ver as fotos que recebeu de Frida, e a sensação de parecer ter ouvido sua voz. Também sua afeição por Diego e o interesse em tudo o que ele faz. Ela finaliza a carta com o mesmo carinho: "E você, mi niña linda, receba todas as minhas bênçãos, da sua mãe que adora você - Matilde"

As cartas mostram claramente o amor e o carinho entre mãe e filha, a saudade, e a dedicação de Frida com a família.

A maneira como Frida relatava seu a dia a dia, mostra a vida de uma pessoa como todas as outras que vivem longe de seus familiares e amigos. A mudança de cidade, as adaptações e a forma como informava sua mãe de seus acontecimentos, sempre de uma forma próxima e participativa.

Detalhes dos textos como "gringas horrorosas" descontraem o conteúdo das cartas sempre cheio de sentimento devido à distância.

Matilde Calderón morreu no dia 15 de setembro de 1932, 30 dias após sua última carta para Frida.

Mamacita Linda: Cartas entre Frida Kahlo e sua mãe estavam em exibição no Museu Nacional das Mulheres na Biblioteca de Artes e no Centro de Pesquisa de 1 a 31 de julho de 2012.

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