Deise Dilkin19/11/2019

Frida Kahlo e suas Principais Obras

Frida Kahlo foi uma das maiores pintoras latino-americanas. Seu trabalho permaneceu pouco conhecido até a década de 1970 quando historiadores e ativistas o trouxeram à tona. Hoje a artista é reconhecida no mundo inteiro por seus autorretratos que expressam toda a dor e sofrimento que teve em vida.

A pintora mexicana começou a pintar aos 18 anos, após sofrer um gravíssimo acidente de bonde que a deixou acamada por vários meses. Seus pais instalaram diversos espelhos em seu quarto para que ela conseguisse ver-se de vários ângulos diferentes. Foram os acontecimentos traumáticos de sua vida que a levaram a começar a pintar.

Suas pinturas abordam, em maior parte, a cultura mexicana e a si própria, retratando suas dores e angústias com cores fortes e marcantes. Seu estilo artístico se assemelha muito ao Surrealismo, tendo inclusive sido homenageada por André Breton, pioneiro na área. A artista teve a sua primeira exposição individual poucos meses antes de morrer, em 1953.

Neste artigo pretendemos fazer uma análise de algumas de suas principais obras.

As Duas Fridas

As Duas Fridas foi um dos quadros mais celebrados da artista e o primeiro de grande dimensão. Foi pintado no ano de 1939, mesmo ano que Frida estava se separando do marido, Diego Rivera. Atualmente esse quadro encontra-se exposto no Museu de Arte Moderna, na Cidade do México.

As Duas Fridas foi um dos quadros mais celebrados da artista e o primeiro de grande dimensão.

Esse quadro teve como objetivo mostrar as duas personalidades da artista no período de sua separação. Uma é a Frida mexicana e a outra é a Frida europeia. Foi uma das principais obras da pintora e é passível de várias interpretações.

O autorretrato pretende trazer à tona questões de identidade. De um lado vemos a sua influência europeia através do vestido branco e clássico, a Frida que Diego não ama mais. Do outro lado a vemos em um traje tehuano que representa o México autêntico, colorido, com cores vivas e que Rivera sempre amou.

O quadro poderia ter sido inspirado em sua recente viagem à Europa. Frida viu no Museu do Louvre as obras As duas irmãs, de Théodore Chassériau e Gabrielle d'Estrées e uma de suas irmãs. No entanto, por muitas vezes a própria artista mencionou que a “outra Frida”, era na verdade uma amiga imaginária que teve em sua infância.

O coração de ambas está exposto, enquanto o da Frida mexicana está intacto, o da Frida europeia está partido. Os únicos elementos que unem as duas personagens são as mãos dadas e uma veia que liga o coração de uma à outra. Enquanto a Frida rejeitada segura um instrumento cirúrgico, a Frida tehuana segura um retrato de Diego quando criança.

Em seu fundo, nuvens que anunciam uma tempestade. Como é muito comum em seus autorretratos, a artista está sozinha em um ambiente monótono. Sua única companhia é ela mesmo, o que demonstra ainda mais solidão. O quadro também poderia significar auto nutrição: onde a pintora fortifica a si mesma.

Frida Kahlo e Diego Rivera

O quadro que leva o nome do famoso casal mexicano foi pintado em 1931. Frida o pintou em sua estadia em Detroit e o ofereceu ao amigo e futuro apoiador do museu, Albert Bender. O quadro pode ter sido baseado em uma imagem de seu casamento.

O quadro Frida Kahlo e Diego Rivera do famoso casal mexicano foi pintado em 1931.

Na obra, o fato de Diego estar segurando instrumentos de pintura torna claro o protagonismo de Diego, enquanto Frida assume o papel da boa esposa, com suas roupas mexicanas tradicionais. Na época Diego já era um grande muralista enquanto Frida apenas começava sua carreira como pintora. No entanto, o retrato também poderia significar uma crítica do papel subordinado que Frida sempre teve no relacionamento.

No retrato há uma pomba acima da cabeça da artista. Ela carrega uma faixa com a frase: "Aqui você nos vê, eu, Frieda Kahlo, com meu amado esposo, Diego Rivera. Pintei esses retratos na bela cidade de San Francisco, Califórnia, para nosso amigo, o senhor Albert Bender, e foi no mês de abril do ano de 1931". Na frase a artista usou a versão alemã de seu nome: Frieda.

O Veado Ferido

O quadro O veado ferido foi pintado em 1946. Na imagem, a cabeça de Frida em um corpo de um veado macho, perfurado por nove flechas. Apesar disso, tanto o animal quanto a artista apresentam um olhar sereno e perseverante.

O quadro de Frida Kahlo O Veado Ferido foi pintado em 1946.

Essa pintura foi feita no final da vida da artista, quando sua saúde já estava bastante debilitada. Ela representa o comportamento de Frida, apesar de suas dores físicas e emocionais, ela segue em frente, firme e forte. Também podemos identificar através desse quadro a vontade de viver que a artista sempre teve, apesar de todo o sofrimento a que foi imputada durante toda sua curta vida.

O animal escolhido, um veado, representa ao mesmo tempo elegância e fragilidade. No mesmo período que o pintou, Frida também o desenhou em seu diário, representando seu animal de estimação: o veado Granizo. O quadro foi presente de casamento da artista para amigos íntimos: Arcady e Lina Boytler.

Essa pintura foi feita antes de Frida passar por uma cirurgia em sua coluna vertebral, que a deixou de cama por quase um ano.

Meus Avós, meus Pais e Eu

O quadro Meus avós, meus pais e eu foi pintado em 1936. A artista o pintou logo após a Lei de Nuremberg que proibia o casamento entre raças diferentes. No quadro sua dupla origem é exaltada.

O quadro Meus avós, meus pais e eu, de Frida Kahlo, foi pintado em 1936.

A pintura é uma árvore genealógica criativa, que mostra de um lado seus avós de origem alemã, logo acima do oceano Atlântico e do outro seus avós de origem indígena e mexicana, acima de montanhas e cactos simbolizando o México.

Frida está ao centro, logo abaixo de seus pais. A imagem de Guillermo e Matilda parece ter sido inspirada em uma fotografia do casamento deles. No ventre de sua mãe há uma criança, uma relação à sua obsessão pelo ciclo da vida.

Na pintura há também a ilustração do encontro entre um espermatozóide e um óvulo, logo abaixo do feto. Esse fato evidencia ainda mais um tema recorrente de sua produção artística que é a maternidade.

Henry Ford Hospital

Outro de seus quadros mais famosos, Henry Ford Hospital foi pintado em 1932. O quadro também é conhecido como “A cama voadora” e foi pintado logo após o segundo aborto de Frida. A pintura retrata um momento de muito sofrimento da artista que insistia em engravidar mesmo com o diagnóstico de que não conseguiria levar sua gravidez adiante.

O Quadro Henry Ford Hospital foi pintado logo após o segundo aborto de Frida

No período em que viveu nos Estados Unidos, Frida viu o seu sonho de ser mãe muito próximo quando engravidou pela segunda vez. No entanto, sua gravidez era de risco e os médicos lhe recomendaram repouso absoluto. Seu corpo frágil não resistiu e ela foi levada ao Hospital Henry Ford para finalizar o processo de aborto que havia começado em casa.

O quadro foi pintado em um momento em que Frida estava profundamente deprimida e questionava o porquê de continuar a viver desta maneira. A pintora chegou a pedir que os médicos a deixassem levar para casa o feto de seu bebê, o qual foi negado. Pintou seu quadro a partir da descrição que encontrou em livros médicos e dos desenhos de seu marido, Diego Rivera.

A Coluna Partida

A coluna partida é um quadro pintado pela artista no ano de 1944. A pintura foi feita logo após ela ter realizado uma cirurgia na coluna para corrigir problemas decorrentes do acidente que teve aos dezoito anos. A cirurgia a deixou presa a um espartilho metálico que ajudava a aliviar a dor intensa que sentia.

Frida pintou o quadro A Coluna Partida logo após ter realizado uma cirurgia na coluna para corrigir problemas decorrentes do acidente que teve aos dezoito anos.

No rosto da artista vê-se a expressão de dor e sofrimento representada pelas lágrimas que escorrem de seus olhos. Frida é retratada no meio de uma paisagem árida e sem vida. Os pregos que perfuram o seu corpo são símbolos da dor constante que enfrentava.

Há pregos maiores juntos à coluna, simbolizando o acidente de bonde que sofreu aos dezoito anos. Outros dois pregos estão no seio esquerdo de Frida, próximos ao coração. Esses referem-se à dor emocional sentida pela artista em meio à solidão. O quadro está exposto atualmente no Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México.

Autorretrato com Vestido de Veludo

O Autorretrato com Vestido de Veludo foi o primeiro quadro pintado por Frida Kahlo. Em 1926, logo após sofrer um gravíssimo acidente de trem, a artista teve que ficar acamada por vários meses para recuperar-se. Entediada sem ter o que fazer, Frida começou a pintar um autorretrato de si mesma.

O Autorretrato com Vestido de Veludo foi o primeiro quadro pintado por Frida Kahlo.

A pintura foi criada para o seu namorado na época, Alejandro Gómez Arias. É um de seus quadros mais simples, com uma influência clássica dos renascentistas. Segundo relato da artista na época: “Eu nunca pensei em pintura até 1926, quando fiquei de cama por causa de um acidente automobilístico. Eu estava morrendo de tédio na cama, com um colete de gesso (tive uma fratura na coluna e em diversas outras partes do corpo), então decidi fazer alguma coisa. Roubei do meu pai algumas tintas a óleo, e a minha mãe encomendou pra mim um cavalete especial porque eu não conseguia ficar sentada, e comecei a pintar”.

Antes de Frida sofrer o acidente, ela estudava medicina.

O Ônibus

O ônibus foi pintado no ano de 1929 e representa o trágico acidente que a artista sofreu em 1925. Quando voltava para casa com o seu namorado Alejandro, o ônibus que estavam bateu em um trem elétrico. Como resultado, Frida teve que ficar nove meses acamada e passou por mais de 35 cirurgias ao longo da vida em função desse acidente.

O Ônibus foi pintado no ano de 1929 e representa o trágico acidente que Frida sofreu em 1925.

No quadro, cinco passageiros e uma criança à espera da chegada em seus destinos. Os passageiros têm posturas bem distintas entre si, vê-se um trabalhador, uma senhora, uma mulher indígena e um casal que simboliza Frida e Alejandro. A criança olha a paisagem pela janela.

Apesar de nunca ter tido coragem de retratar o acidente, este quadro mostra um grupo de pessoas pegando o mesmo transporte. Na paisagem, um prédio com a fachada La Risa, o riso em português. Esse detalhe mostra o humor negro de Frida em relação ao acidente.

Frida deixou um legado artístico intimista e muito feminino. Infelizmente suas obras só foram exaltadas depois de sua morte. A artista teve a coragem de se retratar em situações delicadas de sua vida, também vividas por outras inúmeras mulheres. Seus quadros retratam além de seu sofrimento, sua paixão pelo seu país e os problemas sociais da época.

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